UMAR homenageou as feministas dos anos 70 e 80
No dia 28 de Janeiro, num jantar realizado no Mercado da Ribeira, a UMAR homenageou as feministas das décadas de 1970 e 80. Tal como afirmou a presidente da UMAR, Elisabete Brasil, “a UMAR sentiu este seu primeiro acto público das comemorações dos seus 30 anos como um dever histórico”.
Estiveram presentes mais de 150 mulheres num ambiente de grande alegria e de reencontro.
Da intervenção de homenagem destacam-se as seguintes palavras:

"Elas ousaram escrever um livro de ruptura com um tempo histórico, de clausura para as mulheres e para o país.
Quiseram incriminá-las. O livro foi apreendido.
Mas as solidariedades geradas, em especial de feministas de várias partes do mundo, levaram à formação do Movimento de Libertação das Mulheres em Portugal, no dia em que foram absolvidas, a 7 de Maio de 1974.
Elas quiseram destruir símbolos da opressão das mulheres e para isso manifestaram-se no parque Eduardo VII.
Acto público mal amado, deturpado, queremos hoje e aqui, neste mês de Janeiro, trinta e um anos depois, valorizá-lo através da homenagem a feministas que o protagonizaram.
Elas deram visibilidade aos quotidianos das mulheres através da sua escrita em jornais e revistas.
Elas afirmaram-se como feministas apesar dos riscos de marginalização.
Elas falaram das sexualidades quebrando tabus.
Elas ousaram fazer um programa para a televisão que falava de aborto, trazendo para o debate público, o direito à contracepção e à interrupção de gravidezes não desejadas.
Elas geraram solidariedades em torno dos julgamentos de Maria Antónia Palla e de Conceição Massano.
Elas pressionaram mesmo o poder político para colocar na agenda política a legalização do aborto.
Elas ousaram exibir dentro da Assembleia da República umas camisolas que diziam "Nós abortámos".

Elas ousaram falar da dominação masculina e procuraram tornar visível a violência sobre as mulheres.
"O pessoal é político" - disseram e escreveram.
E escreveram muitas outras coisas em brochuras, revistas, folhetos: "A Lua", "8 de Março", "Não Andes às cegas", "As Bruxas", Artemísia", "Romper o Cerco", revista "Mulheres", "Mulher d'Abril" e muitas outras publicações.
Elas criaram mesmo uma cooperativa editorial de mulheres e um centro de documentação e informação, que na Rua Filipa da Mata foi ponto de encontro de muitas feministas. Elas traziam do estrangeiro livros que por cá não circulavam.
Elas organizaram em Lisboa, pela primeira vez, um seminário internacional sobre violência contra as mulheres, no monumento das descobertas.
Elas também formaram grupos de mulheres em Coimbra e no Porto. Fazendo encontros, debatendo, agindo. Formaram mesmo uma cooperativa de serviços e lançaram uma revista.
Elas teceram projectos numa base de cumplicidade, semeando solidariedades."

Tratou-se de uma homenagem que há muito era devida a estas feministas.
Uma a uma, elas subiram a um pequeno palco. Três jovens da UMAR entregaram-lhes flores, o CD elaborado para esta homenagem e um cartão comemorativo dentro de um envelope lilás. Foram também estas três jovens que falaram do futuro e que lhes agradeceram o seu contributo determinante para que o feminismo em Portugal não tivesse ficado esquecido.

Não falamos nesta pequena notícia do nome de cada uma delas pois temos receio de nos esquecermos de algum.
Importante foi termos estado todas juntas num jantar que ficou decerto na memória de cada uma de nós.