44 anos da UMAR - Com a Memória se constrói o Futuro
Sempre assumimos o nosso passado e sentimos orgulho em ter nascido das lutas das mulheres nos períodos revolucionários após o 25 de abril.

Porque foi aí que a esperança de mudança nas nossas vidas foi mais forte.

Não nascemos como uma associação feminista, porque pouco sabíamos da história dos feminismos, nem dos seus diversos contornos, tal tinha sido o obscurantismo de 48 anos de ditadura fascista, onde o feminismo de primeira vaga tinha ficado diluído na luta antifascista.

Por isso, o nosso nome era União de Mulheres Antifascistas e Revolucionárias.

O nosso logo teve a mão de uma artista feminista brasileira, falecida há pouco tempo, que pertencia à ala revolucionária e comunista das lutas no Brasil no tempo dos Generais: Tereza Costa Rego.

As nossas lutas faziam parte dos quotidianos das mulheres nos bairros pelo direito à habitação, nas fábricas pelo emprego com direitos, nas escolas pelo direito à igualdade, nas herdades ocupadas no Alentejo pelo direito à participação em igualdade com os homens, na saúde pela contraceção e aborto seguro.

Durante muitos anos marcamos agenda política com outras associações e partidos políticos em torno da luta pela despenalização do aborto.

Estivemos e estamos ativas pela Paridade política e familiar, na luta Contra a Violência sobre as Mulheres, na Educação para a Igualdade de Género, nas lutas pela Igualdade Salarial, contra o Assédio e Violência Sexual, contra a MGF.
Os feminismos na UMAR são fruto das experiências vividas com muitas mulheres, consolidando-se depois com a reflexão crítica e com a teoria feminista, na sua diversidade de olhares.

A ligação dialética entre os ativismos e a academia foi sempre uma estratégia adotada que deu os seus frutos no Congresso Feminista 2008, abrindo o espaço a muitas feministas em especial jovens.

Sentimos que as múltiplas discriminações que pesam sobre as mulheres com base nas situações de classe, origem étnico-racial, orientação e identidade sexual, regiões ou países de origem, religião, e outras discriminações são muito difíceis de enfrentar numa sociedade machista, homofóbica, racista onde o capitalismo e o patriarcado andam de mãos dadas a minar a democracia e as liberdades, facilitando e até incentivando o crescimento da extrema- direita.
Nesta situação novos desafios se colocam aos feminismos e à UMAR.

Da nossa Memória podemos retirar para o presente e para o futuro algumas questões: a persistência, o alargamento do campo de ação, o exemplo de um trabalho empenhado, que serve as mulheres e os seus direitos, a valorização dos feminismos em termos teóricos e de ação, sabendo demarcar caminhos, mas não fechando portas nas lutas que se avizinham contra a direita ultraconservadora. Os ataques à disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, assim como à Igualdade de Género adivinham tempos difíceis para os quais o ativismo e pensamento feminista têm de saber responder, através de uma linguagem simples e convincente.

Consideramos que o feminismo neoliberal assente em políticas económicas lesivas dos interesses da maioria das mulheres e na ausência de medidas sociais que sirvam de base à igualdade de direitos, em especial, nestes tempos de Covid, constitui uma falsa ilusão de libertação e de emancipação.

A libertação e emancipação das mulheres só será possível, através da sua mobilização, não apenas de um setor da sociedade mas de todas as mulheres: trabalhadoras nas empresas, nos serviços, imigrantes, mulheres negras, lésbicas, trans, ciganas, trabalhadoras do sexo, mulheres das zonas rurais e do interior do país, mulheres com diversidades funcionais, mulheres e jovens em call-centers e outros espaços de precariedade, trabalhadoras domésticas, estudantes, professoras, investigadoras.

Os feminismos, as lutas na sua diversidade ou são para todas, ou não serão!