Nota de Repúdio
A UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta sinaliza e denuncia os conteúdos sexistas e misóginos que recentemente assaltam a paisagem mediática e as práticas sociais de consumo de publicidade e dos programas de entretenimento televisivo.

Seguindo a ordem cronológica dos acontecimentos aqui denunciados, atente-se em primeiro lugar à publicidade da «Kapten» (empresa de serviços de motorista privado) que escolheu o passado dia 14 de fevereiro (Dia das/os Namoradas/os) para lançar mais uma imagem da sua campanha publicitária – A campanha designa-se “Pelo menos foste de Kapten” (frase que constitui o slogan da marca), que nestes moldes alude às ocasiões em que não tomámos as melhores decisões.


Pois nesse dia, 14 de fevereiro, no mesmo dia em que a Secretaria de Estado para a Cidadania e a Igualdade lança a Campanha #NamorarMEMEaSério, com o objectivo de prevenir a violência no namoro (violências que genericamente radicam nas estereotipias de género), a Kapten brinda-nos com um cartaz que hoje circula nos transportes públicos, mas também nas redes sociais, ilustrando o seguinte episódio: um homem que sai mais cedo do trabalho para surpreender a esposa, esposa essa que afinal estaria em situação de intimidade com um outro homem!

Moral da história publicitária: “Pelo menos foste de Kapten” (o slogan da marca)

Moral social subliminar: “Oh… coitado daquele homem que até saiu mais cedo do trabalho para ir ter com a esposa e afinal a mulher é… adúltera!”

Este formato de publicidade poderá eventualmente agradar e até ir ao encontro do ideário de alguns magistrados da nossa praça, contudo cumpre-nos alertar para o perigo de reforço de estereótipos que este tipo de imagem comporta: homem provedor e atento, mulher traiçoeira e desorientada.

Para além do pendor heteronormativo indelével, parece-nos que a utilização destas estereotipias nas mensagens publicitárias são, não apenas desadequadas, como colidem com aquilo que têm sido as directivas e orientações governamentais veiculadas nos Planos Nacionais e na Estratégia Nacional para a Igualdade e não Discriminação 2018-2030.

Já mais recentemente e perversamente dois dias depois assinalarmos o Dia Internacional das Mulheres evocando a emergência e urgência de clamarmos e reclamarmos a defesa dos direitos das mulheres, a SIC e a TVI surpreendem-nos com a estreia de novos programas de formato casamenteiro, em horário nobre de domingo:

- “Quem quer namorar com o agricultor?” (adaptação do programa britânico “Farmer want´s a wife”), e

- “Quem quer casar com o meu filho?” (adaptado de um original holandês)

O primeiro, da SIC, consiste num formato “feira de gado” onde um conjunto de mulheres desfilam perante 5 agricultores. Cada um deles escolhe 4 mulheres para um segundo encontro e as provas eliminatórias vão-se sucedendo até que cada agricultor encontre a mulher que lhe convém.

Sabemos que neste tipo de programas tudo se passa de modo encenado, porém a imagem que passa é eloquente: as mulheres são expostas como se fossem coisas, o homem faz a sua escolha! A reprodução dos estereótipos sempre presente:

- Se não for para me dar um neto, não se casa com ele! - Diz a mãe de um dos agricultores.

- Uma mulher tem de me conquistar pela barriga – Afirma um outro agricultor, na sua demanda de procurar namorada, ou devemos dizer: mão-de-obra gratuita?

Já o programa da TVI apresenta 5 homens solteiros que por inépcia, ou qualquer outra limitação, recorrem às suas mães para que sejam estas a procurar a noiva ideal. Cada um dos homens inaptos e as respectivas senhoras suas mães procedem em equipa à eliminação de pretendentes femininas. Estas eliminatórias são realizadas com base no reforço das estereotipias que menorizam o estatuto de mulher. As candidatas, perante o homem e a potencial sogra, são avaliadas primeiro pelo seu aspecto físico, depois com perguntas mais específicas, como por exemplo: “sabe cozinhar?”, “fuma?”, “tem filhos?”, entre muitas outras questões às quais invariavelmente se associam um chorrilho de estereótipos.

Em nosso entender estas fórmulas machistas atentam contra a dignidade das mulheres, reduzindo-as a meros objectos de consumo dos homens, também eles aqui representados como imbecis, uma vez que se apresentam assumidamente incapazes de gerir a sua vida afectiva, rendidos (ou será vendidos?) a um programa de entretenimento.

Alertamos que tanto a publicidade quanto os media revelam um caracter transversal e influenciam comportamentos e atitudes. Nos nossos dias, a exposição a estas “pérolas” sexistas e misóginas transcendem o meio televisivo e/ou publicitário e deixam lastro, e fazem esteira para mais além: internet, redes sociais, mentalidades de muitas das pessoas que consomem passivamente estes produtos.

Estamos pois perante uma doença social que apela a uma intervenção que se quer efectiva e urgente, capaz de travar estes recuos civilizacionais.

Questionamo-nos se não deverá ser esta matéria para a intervenção da Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

Solicitamos esclarecimentos e posição pública dos organismos governamentais com responsabilidades em matéria de cidadania e igualdade de género, sobre os degradantes episódios relatados nesta nota de repúdio.


Lisboa, 13 de Março de 2019

A Direcção da UMAR