Simone de Beauvoir - (9 Janeiro de 1908 - 14 de Abril de 1986)

Uma mulher para além do seu tempo

Manuela Tavares

simone beauvoirNascida a 9 de Janeiro de 1908, Simone de Beauvoir foi uma mulher cuja vida atravessou grande parte da história do século XX e que continua a constituir uma referência para as feministas nos tempos actuais.

Uma mulher que viveu, pensou e amou com liberdade. Uma mulher que recusou convenções, que se envolveu em todos os domínios da vida com uma energia quase selvagem e uma grande sede de liberdade. Do seu livro, publicado em 1958, Mémoires d'une jeune fille rangée, Simone mostra o seu gosto pelo conhecimento, a sua paixão pela filosofia, a sua determinação em ter uma existência marcada pelo direito de escolher. "O destino não existe, depende de nós próprios", afirmava, então. O seu pensamento antecipa o feminismo de segunda vaga, que surgiria duas décadas após a publicação de O Segundo Sexo (1949), uma marca fundamental no pensamento feminista do século XX, não só porque desconstrói a ideia da mulher-natureza presa a um destino biológico, o de ser mãe e esposa dedicada, mas também porque introduz questões tabu no discurso político, como a sexualidade feminina, o direito à contracepção e à legalização do aborto.

Recordemos a época em que foi publicado O Segundo Sexo : quatro anos após o final da segunda guerra mundial, pressão pró-natalista dos governos e para o regresso das mulheres ao "doce aconchego" do lar, os filmes "cor de rosa" em que a "heroína" era sempre uma mulher que casava e que viria a ter uma prole de crianças.

O pensamento libertador de Simone de Beauvoir faz ruptura com tudo isto. Opõe-se ao puritanismo e ao maternalismo do pós-guerra. Rasga o véu do determinismo biológico e explica que as mulheres não têm de estar amarradas a nada, a não ser a elas próprias como sujeitos autónomos e senhoras do direito de decidir sobre as suas vidas. Ela evoca os corpos das mulheres como territórios livres.

O seu pensamento como feminista influenciou as obras de Betty Friedan que publica em 1963, A mística da mulher, grande sucesso editorial da época e, ainda, as obras das feministas da corrente radical: Kate Millet e Shulamith Firestone que publicam nos anos setenta: Sexual Politics e a The Dialectic of Sex.

Podemos dizer que Simone de Beauvoir esteve sempre à frente do seu tempo.

Uma década antes de Betty Friedan ter desconstruído a imagem de mulher dona de casa da classe média, muito feliz, que alimentava as capas das revistas norte-americanas, Simone põe em causa esse mesmo estatuto.

Vinte anos antes do Movimento de Libertação de Mulheres ter nascido em França, o seu pensamento continha o gérmen das novas reivindicações feministas. Antecipava mesmo uma nova geração de feministas, com quem conviveu nos anos setenta nas ruas de Paris, nas manifestações pela legalização do aborto, na solidariedade para com a jovem de Bobigny julgada por aborto, na presidência da associação "Choisir" pela contracepção e aborto, no manifesto das 343 francesas de renome que declararam que já tinham abortado, publicado no "Nouvel Observateur" de 5 de Abril de 1971.

Quase quarenta anos dista o seu conceito de mulher, como construção social e cultural – "Não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres" - , da obra de Joan Scott: Gender and the Politics of History (1988), que introduz o conceito de género como uma construção social e cultural dos papéis assumidos por mulheres e homens e do pensamento de Judith Butler, que sustenta ser o sexo também socialmente construído em Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity (1990). Hoje Simone de Beauvoir é revisitada pelas teorias Queer, que nascendo dos estudos gays e lésbicos contestam a ideia de uma identidade fixa.

Como afirmava Ana Luísa Amaral, num recente artigo no Público: "Simone de Beauvoir abriu caminho para a teorização em torno das desigualdades construídas em função das diferenças. Reflectiu sobre as razões históricas e os mitos que fundavam a sociedade patriarcal e que tratavam a mulher como um segundo sexo, silenciando-a e relegando-a para um lugar de subalternidade".1

Mas como todas as grandes figuras de mulheres, Simone de Beauvoir foi alvo de contestação. A recepção de O Segundo Sexo em França foi um escândalo. Em Maio de 1949, a revista Les Temps Modernes publicou um dos capítulos do livro que se debruçava sobre "a iniciação sexual das mulheres", onde se falava do orgasmo e da sensibilidade vaginal das mulheres.

Vinte e dois mil exemplares foram vendidos em duas semanas, mas as críticas choveram de todos os lados, da direita e da "esquerda". A direita acusou-a de "imoral", "pornográfica". Insultos diários surgiam por parte dos sectores católicos conservadores e o seu livro foi colocado no Índex dos livros proibidos, deixando mesmo de ser vendido em algumas livrarias. A esquerda da época, fortemente influenciada pelo PCF e incapaz de vislumbrar ventos de mudança também fez a sua condenação pública. O Segundo Sexo foi considerado por Jeannete Prenant, como a "suprema diversão inventada pelo campo reaccionário a fim de desviar a atenção das mulheres do verdadeiro combate pela sua libertação".

Também por ter sido criticada pela direita e por uma esquerda ortodoxa, Simone de Beauvoir mostrou ter sido "uma mulher para além do seu tempo", porque anunciava também as rupturas que na esquerda se viriam a dar, tendo como um dos fios condutores o combate ao dogmatismo incapaz de olhar o marxismo de uma forma libertadora para os próprios direitos individuais.

Estas foram as críticas da época.

Contudo, outras críticas têm surgido ao longo das duas últimas décadas dentro do campo dos feminismos, que me parecem "forçadas", porque descontextualizadas do período histórico em que surgiu O Segundo Sexo. Estas críticas transformam o pensamento libertador de Simone de Beauvoir numa concepção de "universalismo fálico", como afirma Júlia Kristeva, na medida em que Simone pretenderia que as mulheres fossem iguais aos homens, sem colocar em causa uma igualdade construída em função dos valores masculinos dominantes. Não colocando em causa a necessidade de nos demarcarmos do "sujeito universal neutro", que oculta as desigualdades entre mulheres e homens, ou de uma cidadania que não tenha em conta as diferenças, parece-me abusivo transformar o pensamento libertador de Simone de Beauvoir numa herança de que seja preciso libertar-nos, como afirmava violentamente Antoinette Fouqué no dia a seguir à sua morte, em 1986: "Esta morte não é um acontecimento, mas uma peripécia que vai acelerar a entrada das mulheres no século XXI". Pelo contrário, faço minhas as palavras de Elisabeth Badinter no dia da sua morte: "As mulheres devem-lhe tanto!".

Também, contrariamente ao que, por vezes, é levianamente afirmado, o pensamento de Simone de Beauvoir não constituiu um travão e um impasse teórico para o feminismo. Tal, como hoje, não podemos dizer que a desconstrução do sujeito "mulher" fruto de algum pensamento pós-moderno seja em si impeditivo de novos desafios na teorização dos feminismos.