ENCERRAMENTO CONGRESSO FEMINISTA 2008
Salomé Coelho
A minha responsabilidade é grande. A palavra final é sempre uma palavra finalizadora. Ora o que caracteriza este congresso é mais um início do que um fim. Mais uma vírgula do que um ponto final.
Não está em causa, para mim, fazer uma síntese da totalidade deste congresso, o que seria um exercício humanamente impossível, mesmo para uma feminista.
Trata-se, fundamentalmente, de captar este congresso, na globalidade das suas dinâmicas.
Quando estava a preparar esta intervenção, não pude deixar de me lembrar da Ana Cristina Santos quando prometeu (e cumpriu, que é mais difícil) não citar apenas homens, brancos e mortos. É que eu começaria por evocar precisamente um homem-branco e já morto: o pensador Martin Heidegger.
Deculpa-me o facto de ter a certeza de que Heidegger nunca sonharia ser citado no encerramento de um congresso feminista.
Escreveu, então, Heidegger: “ Um momento de festa é sempre um momento de pensamento”.
E este é sem dúvida um momento de festa. Um momento que não se esgota no agora, mas que vem sendo maturado há algum tempo.
De lés a lés o país foi percorrido, numa rota que não foi solitária.
Nesta celebração nasceram outras cumplicidades. Como não falar da criação do núcleo da UMAR Braga, do Colectivo Flores de Maio, em Coimbra ou da renovada dinâmica da UMAR na Madeira? E isto só para referir algumas cúmplices.
Este nosso roteiro-programa, tão solidamente partilhado, encontrou nos 80 anos do último congresso feminista, em Portugal, um mote inspirador e reavivou saudades de outras inspiradoras. Perguntamos por isso, que força é essa, Madalena Barbosa?
Relemos Beauvoir, seguimos os caminhos de Maria Lamas e na abertura do congresso, no momento de soar a primeira palavra, a nossa memória sorriu a Elina Guimarães.
Construímos todas, com as nossas necessárias diferenças, um congresso com tantas e variadas vozes.
Que possam soar todas elas agora.
Reforçadas por um trabalho de bastidores, com o empenhamento das nossas voluntárias e voluntários, trouxemos as questões dos feminismos ao foco da comunicação social (sabendo que na comunicação social se traça o destino de quase tudo). E se uma só pessoa ficou esclarecida quanto a esta palavra tão maltratada -feminismo- então estamos mais próximas e para o ano seremos mais. Reinventado o cantautor “traz outra amiga, também”.
Os feminismos não sobrevivem sem a festa destes pensamentos; deste plural que se concretiza no termo “feminismos” e que dá ao nosso encontro um carácter de diversidade, confrontação e debate.
É que não estamos em tempo de condescendências, nem de concessões. Pretendemos abrir focos de polémica, nestas causas que nos unem.
E, no rumo da frase citada, unimos então a festa ao pensamento.
Se tivesse de imaginar uma arquitectura para este congresso, escolheria a da tapeçaria: pontos aparentemente afastados unem-se nalgum lado, encontram-se em algum lugar. E o desmanchar de uns implica a derrocada de todos os outros. Muitas vezes, a união - o remate, foi ali mesmo: no corredor; à saída dos painéis, no renovado encontro entre todas e todos. Que possamos prosseguir este fio, noutros lados e com outros pontos. E outras construções…
Alguns passos a curto e a médio prazo estão pensados e prometidos por nós e no seguimento do nosso compromisso:
O site do congresso feminista 2008 irá reproduzir, em parte, o que este congresso foi, recuperando a palavra de Conceição Nogueira: um espaço de encontros. Será mantido um fórum de discussão permanente até que em breve, bem mais breve, um outro congresso possa tomar corpo. Para já, fica o desafio e o apelo a todas e todos feministas que mantenham o entusiasmo que este congresso demonstrou estar bem vivo; e fica também o apelo às instituições políticas, para que reconheçam as organizações de mulheres; que lhes dê voz e os mesmos direitos que outras associações, como as IPSS ou associações jovens, possuem.
Fico por aqui porque muito haveria ainda a dizer, mesmo se este dizer se prolongasse por horas. Gostaria de interpretar este sentimento de incompletude, de dívida face ao evento, como consequência da sua própria riqueza; do seu “excesso mais que perfeito”, para lembrar Ana Luísa Amaral.
Sem glórias nem pequenas vaidades, sem aspirações de carácter meramente pessoal e sem rodeios trabalharemos todas e todos para muitas e muitos mais. Por que este é um congresso feminista: vírgula,
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