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Campanhas & Acções
Comemorações dos 30 anos da UMAR
Comunicação de Elisabete Brasil
Há 30 anos, no dia 12 de Setembro, numa sala do Instituto Superior Técnico cerca de 300 mulheres formaram a UMAR.
Elas eram professoras, operárias, enfermeiras, costureiras, empregadas de comércio, administrativas, trabalhadoras do campo, empregadas domésticas.
Elas vinham das movimentações do 25 de Abril e com um grande desejo de intervir, de mudar as suas vidas. Vinham das campanhas de alfabetização, das lutas nos bairros pelo direito à habitação e a creches.
Aprenderam a reivindicar com o 25 de Abril.
Ousaram afirmar que para defender os seus direitos era preciso uma associação de mulheres.
E a UMAR nasceu com as cores desse período histórico. E também com a marca desses tempos. Era a União de Mulheres Antifascistas e Revolucionárias.
Do símbolo, sempre actual, guardamos uma mulher com o sol por detrás e com os cabelos a esvoaçar ao vento.
Do nome, adaptado aos tempos actuais, guardamos a ideia de transformação da vida das mulheres que tecem novos percursos. Somos hoje a União de Mulheres Alternativa e Resposta.
Dos rostos das protagonistas dessa época fizemos um filme, incompleto pois foram muitos os rostos que não conseguimos filmar.
Algumas, e porque a vida foi tecendo caminhos diferentes, não se viam há muitos anos e estão hoje aqui.
Uma nova e antiga geração da UMAR têm encontro marcado neste jantar.
Saibamos desfrutar dele. Porque estes são momentos únicos.
Uma associação sem história não tem futuro. Por isso temos procurado preservar a nossa história.
Da história guardamos a memória das lutas, nas suas diversas fases e da ligação a outros grupos de mulheres feministas, na altura da luta pela legalização do aborto. Luta inacabada, mas que havemos de vencer. Da luta pela Paridade, ainda recente, finalmente conquistada em forma de lei, mas carente de acção para a sua aplicação.
Da nossa matriz histórica de ligação aos grupos de mulheres mais discriminados, projectamos hoje um grande trabalho em torno da violência de género. Uma actuação técnica diária apoiando as mulheres vítimas de violência. Uma reflexão conjunta sobre o papel específico de uma associação de mulheres como a nossa nesta luta diária.
Com o tempo fomos trilhando os caminhos do feminismo. De um feminismo comprometido socialmente. Vimos que era preciso envolver mais mulheres no debate e por isso estivemos com académicas e activistas em seminários.
Aprendemos com as feministas do início do século que as ligações internacionais são fundamentais para reforçar esta nossa luta. Em tempos de globalização e de guerra entendemos que os laços que podem unir as mulheres de todo o mundo se tem de fazer de forma diferente do passado.
Em redes internacionais, na ligação com outros movimentos sociais. Porque as lutas se entrelaçam para combater as discriminações em função do sexo, da cor de pele, da orientação sexual, de região onde se vive.
Daí o nosso grande empenho na rede feminista mundial da Marcha Mundial de Mulheres que tem dinamizado desde o ano 2000 acções por todo o mundo contra a violência e a pobreza, que afligem sobretudo as mulheres. Não nos é indiferente que morram milhares de mulheres e crianças nos conflitos armados, que as violações em terreno de guerra se abatam assustadoramente sobre as mulheres, que milhares de jovens continuem a ser mutiladas sexualmente, que milhões de mulheres e crianças morram de Sida em África.
Não nos é indiferente que mulheres continuem a ser julgadas em Portugal por aborto. Que sejam sujeitas a todas as humilhações, expondo as suas vidas nos bancos dos tribunais. O aborto tem de ser um direito de opção das mulheres. Faz parte de uma conquista histórica que as mulheres de outros países europeus já alcançaram há trinta anos: o direito a decidir sobre a sua sexualidade e sobre uma maternidade consciente onde a contracepção ocupa também um papel importante.
A luta pela legalização do aborto vai ser uma grande batalha da UMAR e de outras organizações nos próximos meses. Iremos enfrentar um referendo com a convicção que tem de ser para ganhar. Trata-se de uma batalha civilizacional. Cabe-nos mobilizar as mulheres para esse referendo. Mostrar que esta página da luta pelos nossos direitos tem de virar em Portugal. Decididamente. Envolver as jovens mulheres nesta acção é uma aposta, porque representa também um crescer da sua consciência feminista.
Queremos fazer crescer o voluntariado dentro da associação. O Centro de Documentação e Arquivo Feminista Elina Guimarães que estamos a criar tem sido um exemplo de que é possível ligar associadas de várias gerações num trabalho comum. A Marcha Mundial de Mulheres pelas suas características é potenciadora de crescimento junto das novas gerações de raparigas. Os debates e tertúlias na sede são espaços que queremos animar. O Porto tem grandes potencialidades de reflexão e de acção como o provam o seminário sobre “Os feminismos no nosso tempo” e a homenagem realizada este ano a Lisete Moreira do bairro de Aldoar que morreu de aborto em 1997.
Em Janeiro deste ano, nesta mesma sala, a UMAR realizou um jantar de homenagem às feministas dos anos 70 e 80, onde agradeceu o espólio do IDM que foi entregue ao nosso Centro de Documentação. Hoje temos o gosto de ter connosco algumas dessas amigas. Outras, por estarem doentes ou ausentes do país não podem estar como a Maria Teresa Horta e a Madalena Barbosa.
Endereço abraços solidários às companheiras da UMAR que, por circunstâncias várias não puderam estar connosco neste jantar, em especial às companheiras dos Açores e à Clarisse Canha que por actividades da UMAR na Região dos Açores não pôde participar nestas comemorações.
Agradeço, em nome da actual direcção da UMAR, a presença das amigas e amigos que acompanharam este nosso caminho histórico.
Agradecemos, em especial, às mulheres que há 30 anos atrás tornaram possível o nascimento desta nossa associação. Não vou referir nomes com receio de falhar algum.
Pela parte que me toca, como actual presidente da UMAR tudo farei para reforçar os laços que nos unem. Disponham da UMAR. Contamos com o vosso apoio, porque para continuarmos este nosso percurso histórico precisamos de todas, no pouco ou no muito com que possam colaborar.
Viva a UMAR!
Fotografias do Jantar Comemorativo dos 30 anos da UMAR » |